quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Dia 11 de agosto Dia do Estudante: Homenagem a Iara Ialvemberg e a Helenira Rezende


Bonita, feminina e vaidosa, Iara Iavelberg nasceu em uma família de abastados judeus paulistanos, em 7 de maio de 1944, em São Paulo. Seu destino parecia traçado quando, aos dezesseis anos, casou-se com o médico israelita Samuel Halberkon. Mas as infidelidades do marido e a suas aspirações ideológicas, fizeram com que dele se separasse três anos depois.
Iara Iavelberg estudou psicologia na Universidade de São Paulo, tornando-se professora. Fez parte das mulheres da sua geração que se propuseram a mudar a condição feminina. Quebrou todos os tabus e dogmas do seu tempo; mulher desquitada, militante política de esquerda, seguidora do amor livre que se pregava então, ela foi bem além da proposta do seu tempo, pagando com a própria vida a quebra com os laços.Sua beleza e jeito de seguir livre atraíram o amor fugaz de vários companheiros, entre eles o líder estudantil José Dirceu.
Mas foi a paixão que seduziu o capitão Carlos Lamarca, o mítico líder guerrilheiro da resistência à ditadura, que fez de Iara Iavelberg uma guerrilheira notória. Lamarca havia enviado a mulher e os filhos para Cuba, quando se viu envolto pelos encantos de Iara. Por sua vez, sendo a mulher do homem mais procurado e odiado pelo regime militar, também ela tornar-se-ia um alvo cobiçado, tendo a sua imagem estampada em cartazes espalhados pelo país, procurada como terrorista.
No início de 1971, Lamarca foi enviado pelo MR-8 para o interior da Bahia, visto ser o homem
mais procurado da organização. Iara Iavelberg, alçada à cúpula do MR-8, foi enviada para Salvador. Na capital baiana, vivia com o militante Félix Escobar, vinte anos mais velho, assumindo o disfarce de pai e filha. Seria em um apartamento do bairro da Pituba, que os militares teriam encontrado Iara no dia 20 de agosto de 1971. Vendo-se cercada, ela teria escapado para o apartamento vizinho, trancando-se no banheiro de empregada. Descoberta por uma criança, que assustada avisou aos militares, Iara Iavelberg teria, segundo a versão oficial dos seus algozes, suicidado-se com um tiro no peito. Tinha apenas 27 anos.
Para atrair Carlos Lamarca, os militares mantiveram o corpo de Iara Iavelberg na geladeira do Instituto de Medicina Legal de Salvador. Somente após a execução do guerrilheiro, quase um mês depois, é que os pais de Iara foram notificados da sua morte. O corpo foi entregue lacrado à família, expressamente proibido de ser aberto e de que fosse realizada a sua lavagem pelo rabino, um costume secular entre os judeus. Sob uma forte vigilância, somente a família foi autorizada a comparecer ao enterro.
Seguindo os costumes judaicos, Iara Iavelberg foi enterrada na ala dos suicidas do cemitério judaico do Butantã, em São Paulo, com os pés virados para a lápide. Este costume é a maior humilhação para um judeu, visto que o suicídio é tido como um pecado sem perdão à vida, considerada sagrada e pertencente a Deus, intocável pelo homem.
A proibição de que o corpo de Iara Iavelberg passasse pelo ritual da lavagem, despertou as suspeitas dos seus pais, que viram no gesto a tentativa de evitar uma contestação à versão de suicido. Os militares alegaram que as restrições foram feitas como medida de segurança, sob o temor de que a esquerda roubasse o corpo e tomasse-o como estandarte e prova de tortura.
Inconformados com a perda da filha, e com a desonra com a
qual fora enterrada, os pais de Iara Iavelberg jamais deixaram de tentar esclarecer as verdadeiras circunstâncias da sua morte. Para isto, tiveram que esperar que a ditadura fosse extinta. Em 1996 surgiram relatos de pessoas que teriam visto Iara Iavelberg ser presa com vida, o que descartava o ato de suicídio com versão oficial. Diante dos fatos, a família da guerrilheira tentou em 1997, removê-la do vale dos suicidas para outro local, mas foi impedida pelos rabinos. Em 2002 entraram com um pedido na justiça para que o corpo fosse exumado. Os rabinos protelaram o gesto, alegando que o corpo é sagrado, não podendo ser profanado depois de morto. Mas, naquele ano, uma ordem de justiça obrigou aos rabinos a que se deixasse fazer a exumação, o que viria a acontecer em setembro de 2003, quando o cadáver de Iara Iavelberg foi desenterrado da ala dos esquecidos, onde permanecera por 32 anos.
Os resultados da exumação só viriam em 2005, quando foi constatado que o tiro que matara a guerrilheira poderia ter sido dado de longa distância, e não a queima-roupa, como seria em caso de suicídio. Nesta época, os pais de Iara já tinham falecido. Samuel Iavelberg, seu irmão, pôde enterrá-la finalmente, em junho de 2005, na ala sagrada do cemitério, ao lado dos pais. Se os ideais ceifaram-lhe a vida, a verdade da sua morte redimiu-a da desonra ante à família e ao seu povo.

Helenira Rezende

 
Destaque ainda, para Helenira Rezende de Souza Nazareth, nascida em Cerqueira César, São Paulo, em 19 de janeiro de 1944. Dona de uma beleza singela, atlética, foi jogadora de basquete na seleção da sua cidade, além de praticar salto à distância, modalidade que lhe deu várias medalhas no atletismo.
Estudante da Faculdade de Filosofia da Rua Maria
Antônia, em São Paulo, Helenira destacou-se no movimento estudantil, chegando a ser vice-presidente da UNE, em 1968. Após ser presa, Helenira foi solta sob hábeas corpus, dias antes do AI-5 ser editado. Na clandestinidade, partiu para o Araguaia. É considerada desaparecida desde 1972. Teria sucumbido em 29 de setembro de 1972, aos 28 anos, após ter sido metralhada nas pernas, torturada e morta por golpes de baioneta, sendo enterrada na localidade de Oito Barracas. Durante a guerrilha, após a sua morte, o Destacamento A das Forças Guerrilheiras, da qual ela fora integrante, passou a ser chamado por seus companheiros, de Destacamento Helenira Resende, em sua homenagem. Segundo relatos, antes de ser executada, ao ser atacada por dois soldados, matara um deles e ferira o outro.
Em outubro de 1974, Walquíria Afonso Costa, a Walk, estava presa em Xambioá. Seria a última guerrilheira do Araguaia a ser executada pelas forças militares. Walquíria nascera em Uberaba, Minas Gerais, em 2 de agosto de 1947. Ao lado do marido Idalísio Soares Aranha Filho, partiu para o Araguaia, indo viver na região do rio Gameleira, ao sul do Pará. Vários relatórios descrevem diferentes datas da morte de Walquíria, mas os indícios apontam para outubro de 1974, ocasião em que teria sido presa quando pedia comida a um camponês. Magra e desnutrida, manter-se-ia impassível diante de um militar que a interrogava, querendo saber o destino de quatro comunistas. Teria sido executada no fim de uma tarde de outubro daquele fatídico 1974, sendo a última guerrilheira a sucumbir nas mãos sanguinárias das tropas militares designadas para pôr fim a Guerrilha do Araguaia.

2 comentários:

  1. Estou vendo o filme Lamarca e me encantei com Iara Iavelberg,que corvardia fizeram com ela.

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  2. Podem falar o que quiser, que eram comunas (mesmo sem saber tal significado). Que eram isso e aquilo, todavia o que foram é muito CORAJOSOS, imagina lutar contra uma ditadura?
    Heróis <3

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