Um dia, elas resolveram chorar juntas e em público, porque toda a Argentina deveria chorar. No dia 26 de abril de 1976, um oceano de lágrimas começou a inundar o país a partir do Centro de Buenos Aires, na Praça Primeiro de Maio. Lugar melhor não poderiam ter escolhido. Ali, paira o espírito dos mártires de Chicago e de todas as lutas operárias do planeta.
A Ditadura não permitia a concentração de pessoas, dispersou-as, mas elas não desistiram. E passaram a circular pela praça, já que não podiam ficar concentradas. Todas as quintas-feiras. E os ditadores batizaram-nas de "Las locas de Plaza de Mayo". Bendita seja a loucura que denunciou ao mundo os horrores das baionetas assassinas e cujo rastilho pôs fogo em outras forças que, unidas, puseram fim à noite de terror em 1983 e vêm punindo os criminosos.

Num determinado momento, as mães e avós compreenderam que seus filhos e netos jamais voltariam. Mas não deixaram de ir à praça, de chorar e circular. Movimentar-se clamando por justiça. Finda a Ditadura, em 1983, elas seguiram reivindicando a punição dos torturadores.
Em sete anos (1976-1983), o regime militar matou das formas mais ignominiosas, 30 mil oposicionistas, jovens militantes, em sua maioria. Antes de deixarem o poder, promulgaram uma lei de autoanistia, mas, no mesmo ano, o governo de Raul Alfonsin revogou a tal lei e, dois anos depois, cinco dos generais que comandaram o regime foram processados, julgados e condenados. O general Jorge Videla, que chefiou o terror de 1976 a 1981, e seu braço direito, o almirante Emílio Massera, receberam a pena de prisão perpétua.
As Forças Armadas começaram a protestar; Alfonsín cedeu e promulgou a Lei do Ponto Final em 1986, impossibilitando novas investigações. Esta lei foi completada em 1990 com decretos que deixaram na impunidade centenas de assassinos.
"..Mãe, teu filho não desapareceu
Eu o vejo em teus olhos,
Ouço-o em tua boca e em cada gesto teu
Ele me acompanha entre as chamas
De cada nova batalha..."
Mães, avós e filhos unidos na luta!
A mobilização popular, capitaneada por mães, avós e filhos (as) de desapa-recidos reverteu, felizmente, esse retrocesso. Em 2003, o Congresso argentino determinou a nulidade de todas as leis que decretavam a impunidade dos facínoras. Os processos foram reabertos.
O Movimento Avós da Praça de Maio foi criado em 1977 com o fim de localizar as famílias das crianças seqüestradas durante a Ditadura Militar, inclusive as que nasceram nos cárceres antes de suas mães serem assassinadas. Mais de cem foram localizadas e, hoje, muitas, agora jovens, integram o movimento HIJOS (Filhos).
A organização HIJOS - Hijos por la Identidad y la Justicia, contra el Olvido y el Silencio (Filhos pela Identidade e pela Justiça, contra o Esquecimento e o Silêncio) nasceu em 1994, como reação à decisão do governo Carlos Menem, em 1990, de extinguir qualquer investigação ainda em curso para identificar e punir os criminosos do Regime Militar.
Os movimentos sociais organizam anualmente a Marcha da Resistência, para que não haja mais recuos, e a Justiça reine. É no dia 24 de março, reconhecido oficialmente como "Dia Nacional da Memória, pela Verdade e Justiça".
Neste ano, 2011, não foi diferente. Milhares de pessoas marcharam, infelizmente, em dois atos separados. O Movimento está dividido. Num deles, predominam bandeiras vermelhas, palavras de ordem e canções de luta, e denúncias de que no período da democracia, inclusive no governo peronista, continuam acontecendo violações dos direitos humanos. O outro, com predomínio das cores azul e branca, que representam a Argentina e o Partido Justicialista (da atual governante Cristina Kirchner) assegura que no governo democrático os direitos humanos são respeitados e não há mais desaparecidos.
Hebe Bonafini (perdeu dois filhos para a repressão), fundadora e a líder mais conhecida das Mães de Maio, diz que "a tarefa das Mães não é mais resistir à repressão do regime" porque "a presidente Cristina Kirchner está mostrando competência no que faz e nós somos solidárias com o atual governo. Os nossos filhos morreram por um Ideal; nós estamos dando continuidade ao seu combate contra as injustiças sociais".
Esta luta, a Fundação Mães da Praça de Maio está levando à frente mediante um programa de ações sociais nos bairros pobres, como a construção de casas populares com a contratação dos próprios moradores com carteira assinada, benefícios da seguridade social, etc.
As Avós da Praça de Maio continuam a busca dos netos desaparecidos durante a Ditadura; encontraram 102, mas há pelo menos 500 sequestrados pelos comandantes da repressão e entregue a famílias a título de "adoção".
Os Hijos seguem localizando e denunciando torturadores, num tipo de ação denominado "escracho". Seu lema é: "se não há justiça, há escracho". Eles vão até a residência ou local de trabalho do repressor e o denunciam publicamente. Para isso, contam com o apoio de associações de moradores, sindicatos e outras organizações populares.
E todos se unem numa ação afirmativa, desde 2006, que se denomina: "Bairros pela Memória e Justiça". Nessa ação, as organizações buscam identificar o local onde nasceram, estudaram e viveram os militantes assassinados. Reconstroem a sua história, lhes resgatam a identidade e marcam a sua presença para que nunca sejam esquecidos pelo povo.
Para que jamais se repita!
No dia 1º de fevereiro deste ano, em visita à Argentina, a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, encontrou-se com as mães e as avós da Praça de Maio (por que os filhos (HIJOS) não foram convidados?). Hebe Bonafini, líder das Mães, classificou como "bela", a reunião, porque "Dilma e Cristina são mulheres revolucionárias que lutaram ao lado dos nossos filhos e se tornaram presidentas". A presidenta Dilma, por sua vez, também se mostrou emocionada e disse que elas (mães e avós) "fizeram uma manifestação imensa de carinho por mim, identificando em mim o que elas perderam ao longo dos anos".
Estela Carlotto, presidente da Associação Avós da Praça de Maio, também aplaudiu o encontro, mas fez questão de destacar que a memória da Ditadura é essencial para evitar o retorno a formas opressivas de governo, e ressaltou: "Não tenho a menor dúvida de que a presidente Dilma buscará a verdade da justiça e da memória. A verdade de uma história de opressão da Ditadura. Queremos saber quantas são as vítimas da ditadura no Brasil, as circunstâncias das mortes de militantes brasileiros nas décadas de 60 e 70".
Embora criticadas atualmente por sua adesão ao governo Kirchner, as Mães de Maio merecem a homenagem. Elas que primeiro botaram a cabeça de fora e foram às ruas em plena ditadura fascista. Três de suas integrantes foram também "desapa-recidas" pelo Regime (Azucena Villaflor, Esther Ballestrino e María Ponce) e não recuaram. Seguindo seus passos, vieram as Avós e os Filhos, que dão continuidade à luta. Vivam as Mães de Maio, bem como as Avós e os Filhos dos desaparecidos. Para que nunca mais volte a acontecer!
"Guiem as nossas mãos, as suas mãos fortes,
Para o futuro, até a vitória, sempre!"
José Levino, historiador
fonte: http://www.averdade.org.br/
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