sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A importância da organização das mulheres

“De nossas concepções ideológicas se desprendem como conseqüência medidas de organização. Nada de organizações especiais de mulheres comunistas! A comunista é tão militante do Partido como é o comunista, com as mesmas obrigações e direitos. Nisto não pode haver nenhuma divergência. Entretanto não devemos fechar os olhos perante os fatos. O Partido deve contar com os órgãos – grupos de trabalho, comissões, seções, ou como se decida denominá-los – cuja tarefa principal consista em despertar as amplas massas femininas, vinculadas ao Partido, sobre a sua influência. Para isto é necessário, sem dúvida, que desenvolvamos plenamente, um trabalho sistemático entre essas massas femininas. Devemos educar as mulheres que tenhamos conseguido tirar da passividade, devemos recrutá-las e armá-las para a luta de classes proletária sob a direção do Partido Comunista. Não só me refiro às proletárias que trabalham na fábrica ou se afanam no lar, como também às camponesas e às mulheres das distintas camadas da pequena-burguesia. Elas também são vítimas do capitalismo e desde a guerra são mais que nunca. Psicologia apolítica, não social, atrasada dessas massas femininas; estreiteza de seu campo de atividade, todo seu modo de vida: estes são os fatos. Não prestar atenção a isto seria inconcebível, completamente inconcebível. Necessitamos de métodos especiais de agitação e formas especiais de organização. Não se trata de uma defesa burguesa dos “direitos da mulher”, e sim, dos interesses práticos da revolução”. (Lênin) Disse a Lênin que suas reflexões constituíam para mim um apoio valioso. Muitos camaradas, muitos bons camaradas se opunham de maneira mais decidida a que o Partido criasse órgãos especiais para um trabalho metódico entre as amplas massas femininas. Chamavam a isto retorno às tradições social-democratas, à célebre “emancipação da mulher”. Tratavam de demonstrar que os partidos comunistas, ao reconhecerem por princípio e plenamente a igualdade de direitos da mulher, devem desenvolver seu trabalho entre as massas de trabalhadores sem diferença de qualquer espécie. A maneira de trabalhar entre as mulheres deve ser a mesma que entre os homens. Todo intento de considerar na agitação e na organização as circunstâncias indicadas por Lênin é considerada pelos defensores da opinião oposta: oportunismo, traição e uma renúncia aos princípios.

Clara lutou por uma sociedade sem classes e sem machismo
-“Isto não é novo nem serve de modo algum como prova- replicou Lênin- não se deixe confundir. Por que em nenhuma nação, nem na Rússia Soviética, militam no Partido tantas mulheres quantos são os homens? Por que o número de mulheres operárias organizadas nos sindicatos é tão pequeno? Estes fatos nos obrigam a refletir. Negar a necessidade de órgãos especiais para nosso trabalho entre as extensas massas femininas é uma das manifestações muito de princípio e muito radical de nossos “queridos amigos” do Partido Operário Comunista. Segundo eles, deve existir uma só forma de organização: a união operária. Já sei. Muitas cabeças de mentalidade revolucionaria, porém embaralhadas, se remetem aos princípios e não vêem a realidade, isto é quando a inteligência se nega a apreciar os fatos concretos aos quais se deve prestar atenção. Como fazem frente, estes mantenedores da “pureza de princípios”, às necessidades que nos impõe o desenvolvimento histórico em nossa política revolucionária? Todas essas defesas vêm abaixo ante uma necessidade inexorável: sem  milhões de mulheres não podemos levar a cabo a construção comunista. Devemos encontrar o caminho que nos conduz até elas, devemos estudar muitos métodos para encontrá-lo”.
“Por isto é totalmente justo que apresentemos reivindicações em favor da mulher. Isto não é um programa mínimo, não é um programa de reformas no espírito social-democrata, no espírito da II Internacional. Isto não é o reconhecimento de que acreditamos na eternidade ou ao menos na existência prolongada da burguesia e de seu Estado. Tampouco é nossa intenção apaziguar as massas femininas com reformas e desviá-las da luta revolucionária. Isto nada tem em comum com as superstições reformistas. Nossas reivindicações existem na prática, pela tremenda miséria e pelas vergonhosas humilhações que sofre a mulher, débil e desamparada em um regime burguês. Com isto testemunhamos que conhecemos essas necessidades, que compreendemos a opressão da mulher, que compreendemos a situação privilegiada do homem e odiamos. – Sim, odiamos e queremos eliminar tudo que oprime e atormenta a operária, a mulher do operário, a camponesa, a mulher do homem simples e inclusive, e em muitos aspectos, a mulher acomodada. Os direitos e as medidas sociais que exigimos da sociedade burguesa para a mulher, são uma prova de que compreendemos a situação e os interesses da mulher e de que na ditadura proletária a teremos em conta. Desde logo, não com adormecedoras medidas de tutela; não, claro que não, sim como revolucionários que chamam a mulher a trabalhar em pé de igualdade pela transformação da economia e da superestrutura ideológica.”
Assegurei a Lênin que compartilhava de seu ponto de vista, porém, que este ponto de vista encontraria, indubitavelmente, resistência. Mentes inseguras e medrosas o rechaçariam como “oportunismo perigoso”. Tampouco podemos negar que nossas reivindicações para as mulheres podem compreender-se e interpretar-se equivocadamente.
-“Que vamos fazer! – Lênin exclamou, algo irritado. Este perigo se estende a tudo que digamos e façamos. Se por temor a ele nos abstivermos de atos convenientes e necessários, poderemos converter-os em índios místicos contemplativos. Nada de mover-se, nada de mover-se, senão caímos da altura de nossos princípios! Em nosso caso, não se trata simplesmente de que exijamos isto e sim de como fazemos isto. Eu acredito que sublinhei com bastante clareza, isto. Como é lógico, em nossa propaganda não devemos ficar na posição de rezar um rosário de nossas reivindicações para as mulheres. Não, dependendo das condições existentes, devemos lutar ou por uma das reivindicações ou por outra, lutar de verdade, sempre em relação aos interesses gerais do proletariado”.
“Como é lógico, cada combate nos põe em contradição com a honorável camarilha burguesa e seus não menos honoráveis lacaios reformistas. Isto obriga estes últimos a lutar ao nosso lado, sob nossa direção – coisa que não querem – ou a tirar a máscara. Portanto, a luta faz com que nos destaquemos e mostra claramente nosso perfil comunista. A luta provoca a confiança das amplas massas femininas, que se sentem exploradas, escravizadas, esgotadas pelo domínio do homem, pelo poder dos patrões e por toda sociedade burguesa em seu conjunto. As trabalhadoras, traídas e abandonadas por todos, começam a entender que devem lutar junto conosco. Devemos ainda persuadir-nos uns aos outros que a luta pelos direitos da mulher tem de vincular-se com o objetivo fundamental: com a conquista do Poder e a instauração da ditadura do proletariado. Isto é para nós, nos momentos atuais e nos que se seguirão, o alfa e o ômega. Isto é evidente, completamente evidente. Porém as amplas massas femininas, trabalhadoras, não sentirão desejo irresistível de compartilhar conosco a luta pelo Poder do Estado, se sempre apregoamos somente esta reivindicação, ainda que seja com as trombetas de Jericó! Não, não! Também devemos vincular politicamente, na consciência das massas femininas, no chamamento, com os sofrimentos, as necessidades e os desejos das trabalhadoras. Estas devem saber que a ditadura proletária significa a plena igualdade de direitos com o homem, tanto perante a lei, como na prática, na família, no Estado e na sociedade, assim como também a derrubada do poder da burguesia.”
- A Rússia Soviética está demonstrando isto, exclamei! E nos servirá de grande exemplo!
Lênin prosseguiu:
-“A Rússia Soviética levanta nossas reivindicações para as mulheres sob um novo aspecto. Na ditadura do proletariado, estas reivindicações já não são objeto de luta entre o proletariado e a burguesia, e sim, são tijolos para a construção da sociedade comunista. Isto mostra às mulheres estrangeiras a importância decisiva da conquista do Poder pelo proletariado. A diferença entre sua situação aqui e lá, deve ser estabelecida com precisão, para que vocês possam contar com as massas femininas na luta revolucionária de classes do proletariado. Saber mobilizá-las com uma clara compreensão dos princípios e sob uma firme base organizativa, é uma questão da qual dependem a vida e a vitória do Partido Comunista. Porém, não devemos enganar-nos. Em nossas seções nacionais não existe ainda uma compreensão cabal deste problema. Nossas seções nacionais mantêm uma atitude passiva e expectante perante a tarefa de criar, sob a direção comunista, um movimento de massas das trabalhadoras. Não compreendem que liberar esse movimento de massas e dirigi-lo constitui uma parte importante de toda a atividade do partido, inclusive a metade do trabalho geral no Partido. Às vezes, o reconhecimento da necessidade e do valor de um potente movimento feminino comunista, que tenha diante de si um objetivo claro, é um reconhecimento platônico da palavra e não uma preocupação e um dever constante do Partido.”
A agitação e a propaganda entre as mulheres
“Nossas seções nacionais recebem o trabalho de agitação e propaganda entre as massas femininas, seu despertar e sua radicalização revolucionária, como algo secundário como uma tarefa que só afeta as mulheres comunistas. Às comunistas incomoda que este trabalho não avance com a devida rapidez e energia. Isto é injusto, totalmente injusto! É uma verdadeira igualdade de direitos ao avesso, “á la rebours”, como dizem os franceses. Em que se baseia esta posição errada de nossas seções nacionais? Não falo da Rússia Soviética. Definitivamente, isto é somente uma subestimação da mulher e de seu trabalho. Precisamente isto. Desgraçadamente ainda se pode dizer de muitos de nossos camaradas: “Escave um comunista e encontrará um filisteu”. Como é natural devemos escavar em um ponto sensível: em sua psicologia em relação à mulher. Existe prova mais consistente que os homens assistam com calma como a mulher se desgasta no trabalho doméstico, um trabalho miúdo, monótono, esgotante, que lhe absorve o tempo e as energias; como estreitam seus horizontes, se nubla sua inteligência, se debilita o bater de seus corações e decai a vontade? Não estou aludindo, naturalmente às damas burguesas que encomendam todos os seus afazeres domésticos, incluindo o cuidado dos filhos, a pessoas assalariadas. Tudo o que digo se refere à imensa maioria das mulheres, entre elas as mulheres dos operários, ainda que passem todo o dia na fábrica e ganhem seu salário”.
“São muitos poucos os maridos, inclusive entre os proletários que pensam no muito que poderiam aliviar o peso e as preocupações da mulher e até suprimi-los por completo, se quisessem ajudar no “ trabalho da mulher”. Não fazem por considerar isto em contradição com o “direito e a dignidade do marido”. Este exige descanso e comodidade. A vida continua substituindo de maneira encoberta. Sua escrava vinga-se dele objetivamente, por esta situação e também de maneira velada: o atraso da mulher, sua incompreensão dos ideais revolucionários do marido, debilitam o entusiasmo deste e sua decisão de luta. Estes são os pequeninos vermes que corroem e minam as energias de modo imperceptíveis e lento, porém seguro. Conheço a vida dos operários não somente pelos livros. Nosso trabalho comunista entre as massas femininas precisa ser compreendido por uma parte cada vez mais considerável dos homens. Devemos extirpar, até as últimas e mais ínfimas raízes, o velho ponto de vista próprio dos tempos da escravidão. Devemos fazê-lo tanto no Partido como entre as massas. Isto se relaciona tanto com nossas tarefas políticas como à imperiosa necessidade de formar um núcleo de camaradas – homens e mulheres – que conte com uma séria preparação, teórica e prática para realizar e impulsionar o trabalho do Partido entre as trabalhadoras.”, concluiu Lênin.

(Fonte: livro Recordações de Lênin, de Clara Zetzin))

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Tipos de violência contra mulher


 A violência contra a mulher pode se manifestar de várias formas e com diferentes graus de severidade. Estas formas de violência não se produzem isoladamente, mas fazem parte de uma sociedade dividida em  classes, na qual explora e oprime a mulher de acordo com seus interesses.


Violência intrafamiliar

A violência intrafamiliar é toda ação ou omissão que prejudique o bem-estar, a integridade física, psicológica ou a liberdade e o direito ao pleno desenvolvimento de outro membro da família. Pode ser cometida dentro ou fora de casa por algum membro da família, incluindo pessoas que passam a assumir função parental, ainda que sem laços de consangüinidade, e em relação de poder à outra. O conceito de violência intrafamiliar não se refere apenas ao espaço físico onde a violência ocorre, mas também às relações em que se constrói e efetua.
Violência doméstica

A violência doméstica distingue-se da violência intrafamiliar por incluir outros membros do grupo, sem função parental, que convivam no espaço doméstico. Incluem-se aí empregados(as), pessoas que convivem esporadicamente, agregados. Acontece dentro de casa ou unidade doméstica e geralmente é praticada por um membro da família que viva com a vítima. As agressões domésticas incluem: abuso físico, sexual e psicológico, a negligência e o abandono.
Violência física

Ocorre quando uma pessoa, que está em relação de poder em relação a outra, causa ou tenta causar dano não acidental, por meio do uso da força física ou de algum tipo de arma que pode provocar ou não lesões externas, internas ou ambas. Segundo concepções mais recentes, o castigo repetido, não severo, também se considera violência física.
Esta violência pode se manifestar de várias formas:
• Tapas
• Empurrões
• Socos
• Mordidas
• Chutes
• Queimaduras
• Cortes
• Estrangulamento
• Lesões por armas ou objetos
• Obrigar a tomar medicamentos desnecessários ou inadequados, álcool, drogas ou outras substâncias, inclusive alimentos.
• Tirar de casa à força
• Amarrar
• Arrastar
• Arrancar a roupa
• Abandonar em lugares desconhecidos
• Danos à integridade corporal decorrentes de negligência (omissão de cuidados e proteção contra agravos evitáveis como situações de perigo, doenças, gravidez, alimentação, higiene, entre outros).
Violência sexual

A violência sexual compreende uma variedade de atos ou tentativas de relação sexual sob coação ou fisicamente forçada, no casamento ou em outros relacionamentos.
A violência sexual é cometida na maioria das vezes por autores conhecidos das mulheres envolvendo o vínculo conjugal (esposo e companheiro) no espaço doméstico, o que contribui para sua invisibilidade. Esse tipo de violência acontece nas várias classes sociais e nas diferentes culturas. Diversos atos sexualmente violentos podem ocorrer em diferentes circunstâncias e cenários. Dentre eles podemos citar:
• Estupro dentro do casamento ou namoro;
• Estupro cometido por estranhos;
• Investidas sexuais indesejadas ou assédio sexual, inclusive exigência de sexo como pagamento de favores;
• Abuso sexual de pessoas mental ou fisicamente incapazes;
• Abuso sexual de crianças;
• Casamento ou coabitação forçados, inclusive casamento de crianças;
• Negação do direito de usar anticoncepcionais ou de adotar outras medidas de proteção contra doenças sexualmente transmitidas;
• Aborto forçado;
• Atos violentos contra a integridade sexual das mulheres,
inclusive mutilação genital feminina e exames obrigatórios de virgindade;
• Prostituição forçada e tráfico de pessoas com fins de exploração sexual;
• Estupro sistemático durante conflito armado.
Violência psicológica

É toda ação ou omissão que causa ou visa causar dano á auto-estima, à identidade ou ao desenvolvimento da pessoa. Inclui:
• Insultos constantes
• Humilhação
• Desvalorização
• Chantagem
• Isolamento de amigos e familiares
• Ridicularização
• Rechaço
• Manipulação afetiva
• Exploração
• Negligência (atos de omissão a cuidados e proteção contra agravos evitáveis como situações de perigo, doenças, gravidez, alimentação, higiene, entre outros)
• Ameaças
• Privação arbitraria da liberdade (impedimento de trabalhar, estudar,
cuidar da aparência pessoal, gerenciar o próprio dinheiro, brincar, etc.)
• Confinamento doméstico
• Criticas pelo desempenho sexual
• Omissão de carinho
• Negar atenção e supervisão
Violência econômica ou financeira

São todos os atos destrutivos ou omissões do(a) agressor(a) que afetam a saúde emocional e a sobrevivência dos membros da família. Inclui:
• Roubo
• Destruição de bens pessoais (roupas, objetos, documentos, animais de estimação e outros) ou de bens da sociedade conjugal (residência, móveis e utensílios domésticos, terras e outros)
• Recusa de pagar a pensão alimentícia ou de participar nos gastos básicos para a sobrevivência do núcleo familiar
• Uso dos recursos econômicos da pessoa idosa, tutelada ou incapaz, destituindo-a de gerir seus próprios recursos e deixando-a sem provimentos e cuidados
Violência institucional

Violência institucional é aquela exercida nos/ pelos próprios serviços públicos, por ação ou omissão. Pode incluir desde a dimensão mais ampla da falta de acesso à má qualidade dos serviços. Abrange abusos cometidos em virtude das relações de poder desiguais entre usuários e profissionais dentro das instituições, até por uma noção mais restrita de dano físico intencional. Esta violência poder ser identificada de várias formas:
• Peregrinação por diversos serviços até receber atendimento
• Falta de escuta e tempo para a clientela
• Frieza, rispidez, falta de atenção, negligência
• Maus-tratos dos profissionais para com os usuários, motivados por discriminação, abrangendo questões de raça, idade, opção sexual, deficiência física, doença mental
• Violação dos direitos reprodutivos (discrição das mulheres em processo
de abortamento, aceleração do parto para liberar leitos, preconceitos acerca dos papéis sexuais e em relação às mulheres soropositivas [HIV], quando estão grávidas ou desejam engravidar)
• Desqualificação do saber prático, da experiência de vida, diante do saber científico


Referências bibliográficas
Ministério da Saúde. Violência Intrafamiliar: orientações para a Prática em Serviço. Brasília DF: Ministério da Saúde; 2002.

Rede Feminista de Saúde. Dossiê Violência contra a Mulher. http://www.redesaude.gov.br (acessado em 26/Julho/2006).

Dia 11 de agosto Dia do Estudante: Homenagem a Iara Ialvemberg e a Helenira Rezende


Bonita, feminina e vaidosa, Iara Iavelberg nasceu em uma família de abastados judeus paulistanos, em 7 de maio de 1944, em São Paulo. Seu destino parecia traçado quando, aos dezesseis anos, casou-se com o médico israelita Samuel Halberkon. Mas as infidelidades do marido e a suas aspirações ideológicas, fizeram com que dele se separasse três anos depois.
Iara Iavelberg estudou psicologia na Universidade de São Paulo, tornando-se professora. Fez parte das mulheres da sua geração que se propuseram a mudar a condição feminina. Quebrou todos os tabus e dogmas do seu tempo; mulher desquitada, militante política de esquerda, seguidora do amor livre que se pregava então, ela foi bem além da proposta do seu tempo, pagando com a própria vida a quebra com os laços.Sua beleza e jeito de seguir livre atraíram o amor fugaz de vários companheiros, entre eles o líder estudantil José Dirceu.
Mas foi a paixão que seduziu o capitão Carlos Lamarca, o mítico líder guerrilheiro da resistência à ditadura, que fez de Iara Iavelberg uma guerrilheira notória. Lamarca havia enviado a mulher e os filhos para Cuba, quando se viu envolto pelos encantos de Iara. Por sua vez, sendo a mulher do homem mais procurado e odiado pelo regime militar, também ela tornar-se-ia um alvo cobiçado, tendo a sua imagem estampada em cartazes espalhados pelo país, procurada como terrorista.
No início de 1971, Lamarca foi enviado pelo MR-8 para o interior da Bahia, visto ser o homem
mais procurado da organização. Iara Iavelberg, alçada à cúpula do MR-8, foi enviada para Salvador. Na capital baiana, vivia com o militante Félix Escobar, vinte anos mais velho, assumindo o disfarce de pai e filha. Seria em um apartamento do bairro da Pituba, que os militares teriam encontrado Iara no dia 20 de agosto de 1971. Vendo-se cercada, ela teria escapado para o apartamento vizinho, trancando-se no banheiro de empregada. Descoberta por uma criança, que assustada avisou aos militares, Iara Iavelberg teria, segundo a versão oficial dos seus algozes, suicidado-se com um tiro no peito. Tinha apenas 27 anos.
Para atrair Carlos Lamarca, os militares mantiveram o corpo de Iara Iavelberg na geladeira do Instituto de Medicina Legal de Salvador. Somente após a execução do guerrilheiro, quase um mês depois, é que os pais de Iara foram notificados da sua morte. O corpo foi entregue lacrado à família, expressamente proibido de ser aberto e de que fosse realizada a sua lavagem pelo rabino, um costume secular entre os judeus. Sob uma forte vigilância, somente a família foi autorizada a comparecer ao enterro.
Seguindo os costumes judaicos, Iara Iavelberg foi enterrada na ala dos suicidas do cemitério judaico do Butantã, em São Paulo, com os pés virados para a lápide. Este costume é a maior humilhação para um judeu, visto que o suicídio é tido como um pecado sem perdão à vida, considerada sagrada e pertencente a Deus, intocável pelo homem.
A proibição de que o corpo de Iara Iavelberg passasse pelo ritual da lavagem, despertou as suspeitas dos seus pais, que viram no gesto a tentativa de evitar uma contestação à versão de suicido. Os militares alegaram que as restrições foram feitas como medida de segurança, sob o temor de que a esquerda roubasse o corpo e tomasse-o como estandarte e prova de tortura.
Inconformados com a perda da filha, e com a desonra com a
qual fora enterrada, os pais de Iara Iavelberg jamais deixaram de tentar esclarecer as verdadeiras circunstâncias da sua morte. Para isto, tiveram que esperar que a ditadura fosse extinta. Em 1996 surgiram relatos de pessoas que teriam visto Iara Iavelberg ser presa com vida, o que descartava o ato de suicídio com versão oficial. Diante dos fatos, a família da guerrilheira tentou em 1997, removê-la do vale dos suicidas para outro local, mas foi impedida pelos rabinos. Em 2002 entraram com um pedido na justiça para que o corpo fosse exumado. Os rabinos protelaram o gesto, alegando que o corpo é sagrado, não podendo ser profanado depois de morto. Mas, naquele ano, uma ordem de justiça obrigou aos rabinos a que se deixasse fazer a exumação, o que viria a acontecer em setembro de 2003, quando o cadáver de Iara Iavelberg foi desenterrado da ala dos esquecidos, onde permanecera por 32 anos.
Os resultados da exumação só viriam em 2005, quando foi constatado que o tiro que matara a guerrilheira poderia ter sido dado de longa distância, e não a queima-roupa, como seria em caso de suicídio. Nesta época, os pais de Iara já tinham falecido. Samuel Iavelberg, seu irmão, pôde enterrá-la finalmente, em junho de 2005, na ala sagrada do cemitério, ao lado dos pais. Se os ideais ceifaram-lhe a vida, a verdade da sua morte redimiu-a da desonra ante à família e ao seu povo.

Helenira Rezende

 
Destaque ainda, para Helenira Rezende de Souza Nazareth, nascida em Cerqueira César, São Paulo, em 19 de janeiro de 1944. Dona de uma beleza singela, atlética, foi jogadora de basquete na seleção da sua cidade, além de praticar salto à distância, modalidade que lhe deu várias medalhas no atletismo.
Estudante da Faculdade de Filosofia da Rua Maria
Antônia, em São Paulo, Helenira destacou-se no movimento estudantil, chegando a ser vice-presidente da UNE, em 1968. Após ser presa, Helenira foi solta sob hábeas corpus, dias antes do AI-5 ser editado. Na clandestinidade, partiu para o Araguaia. É considerada desaparecida desde 1972. Teria sucumbido em 29 de setembro de 1972, aos 28 anos, após ter sido metralhada nas pernas, torturada e morta por golpes de baioneta, sendo enterrada na localidade de Oito Barracas. Durante a guerrilha, após a sua morte, o Destacamento A das Forças Guerrilheiras, da qual ela fora integrante, passou a ser chamado por seus companheiros, de Destacamento Helenira Resende, em sua homenagem. Segundo relatos, antes de ser executada, ao ser atacada por dois soldados, matara um deles e ferira o outro.
Em outubro de 1974, Walquíria Afonso Costa, a Walk, estava presa em Xambioá. Seria a última guerrilheira do Araguaia a ser executada pelas forças militares. Walquíria nascera em Uberaba, Minas Gerais, em 2 de agosto de 1947. Ao lado do marido Idalísio Soares Aranha Filho, partiu para o Araguaia, indo viver na região do rio Gameleira, ao sul do Pará. Vários relatórios descrevem diferentes datas da morte de Walquíria, mas os indícios apontam para outubro de 1974, ocasião em que teria sido presa quando pedia comida a um camponês. Magra e desnutrida, manter-se-ia impassível diante de um militar que a interrogava, querendo saber o destino de quatro comunistas. Teria sido executada no fim de uma tarde de outubro daquele fatídico 1974, sendo a última guerrilheira a sucumbir nas mãos sanguinárias das tropas militares designadas para pôr fim a Guerrilha do Araguaia.

As mães de Maio

Elas não compreendiam direito por que seus filhos e netos desapareciam. Ouviam dizer que a responsabilidade era dos generais, era da Ditadura Militar que se instalara na Argentina em 1976. Aquelas senhoras apenas choravam. Iam às delegacias e não obtinham respostas sobre o paradeiro de seus meninos e meninas.


Um dia, elas resolveram chorar juntas e em público, porque toda a Argentina deveria chorar. No dia 26 de abril de 1976, um oceano de lágrimas começou a inundar o país a partir do Centro de Buenos Aires, na Praça Primeiro de Maio. Lugar melhor não poderiam ter escolhido. Ali, paira o espírito dos mártires de Chicago e de todas as lutas operárias do planeta.








A Ditadura não permitia a concentração de pessoas, dispersou-as, mas elas não desistiram. E passaram a circular pela praça, já que não podiam ficar concentradas. Todas as quintas-feiras. E os ditadores batizaram-nas de "Las locas de Plaza de Mayo". Bendita seja a loucura que denunciou ao mundo os horrores das baionetas assassinas e cujo rastilho pôs fogo em outras forças que, unidas, puseram fim à noite de terror em 1983 e vêm punindo os criminosos.


Num determinado momento, as mães e avós compreenderam que seus filhos e netos jamais voltariam. Mas não deixaram de ir à praça, de chorar e circular. Movimentar-se clamando por justiça. Finda a Ditadura, em 1983, elas seguiram reivindicando a punição dos torturadores.


Em sete anos (1976-1983), o regime militar matou das formas mais ignominiosas, 30 mil oposicionistas, jovens militantes, em sua maioria. Antes de deixarem o poder, promulgaram uma lei de autoanistia, mas, no mesmo ano, o governo de Raul Alfonsin revogou a tal lei e, dois anos depois, cinco dos generais que comandaram o regime foram processados, julgados e condenados. O general Jorge Videla, que chefiou o terror de 1976 a 1981, e seu braço direito, o almirante Emílio Massera, receberam a pena de prisão perpétua.


As Forças Armadas começaram a protestar; Alfonsín cedeu e promulgou a Lei do Ponto Final em 1986, impossibilitando novas investigações. Esta lei foi completada em 1990 com decretos que deixaram na impunidade centenas de assassinos.


"..Mãe, teu filho não desapareceu
Eu o vejo em teus olhos,
Ouço-o em tua boca e em cada gesto teu
Ele me acompanha entre as chamas
De cada nova batalha..."
Mães, avós e filhos unidos na luta!


A mobilização popular, capitaneada por mães, avós e filhos (as) de desapa-recidos reverteu, felizmente, esse retrocesso. Em 2003, o Congresso argentino determinou a nulidade de todas as leis que decretavam a impunidade dos facínoras. Os processos foram reabertos.


O Movimento Avós da Praça de Maio foi criado em 1977 com o fim de localizar as famílias das crianças seqüestradas durante a Ditadura Militar, inclusive as que nasceram nos cárceres antes de suas mães serem assassinadas. Mais de cem foram localizadas e, hoje, muitas, agora jovens, integram o movimento HIJOS (Filhos).


A organização HIJOS - Hijos por la Identidad y la Justicia, contra el Olvido y el Silencio (Filhos pela Identidade e pela Justiça, contra o Esquecimento e o Silêncio) nasceu em 1994, como reação à decisão do governo Carlos Menem, em 1990, de extinguir qualquer investigação ainda em curso para identificar e punir os criminosos do Regime Militar.


Os movimentos sociais organizam anualmente a Marcha da Resistência, para que não haja mais recuos, e a Justiça reine. É no dia 24 de março, reconhecido oficialmente como "Dia Nacional da Memória, pela Verdade e Justiça".


Neste ano, 2011, não foi diferente. Milhares de pessoas marcharam, infelizmente, em dois atos separados. O Movimento está dividido. Num deles, predominam bandeiras vermelhas, palavras de ordem e canções de luta, e denúncias de que no período da democracia, inclusive no governo peronista, continuam acontecendo violações dos direitos humanos. O outro, com predomínio das cores azul e branca, que representam a Argentina e o Partido Justicialista (da atual governante Cristina Kirchner) assegura que no governo democrático os direitos humanos são respeitados e não há mais desaparecidos.


Hebe Bonafini (perdeu dois filhos para a repressão), fundadora e a líder mais conhecida das Mães de Maio, diz que "a tarefa das Mães não é mais resistir à repressão do regime" porque "a presidente Cristina Kirchner está mostrando competência no que faz e nós somos solidárias com o atual governo. Os nossos filhos morreram por um Ideal; nós estamos dando continuidade ao seu combate contra as injustiças sociais".


Esta luta, a Fundação Mães da Praça de Maio está levando à frente mediante um programa de ações sociais nos bairros pobres, como a construção de casas populares com a contratação dos próprios moradores com carteira assinada, benefícios da seguridade social, etc.


As Avós da Praça de Maio continuam a busca dos netos desaparecidos durante a Ditadura; encontraram 102, mas há pelo menos 500 sequestrados pelos comandantes da repressão e entregue a famílias a título de "adoção".


Os Hijos seguem localizando e denunciando torturadores, num tipo de ação denominado "escracho". Seu lema é: "se não há justiça, há escracho". Eles vão até a residência ou local de trabalho do repressor e o denunciam publicamente. Para isso, contam com o apoio de associações de moradores, sindicatos e outras organizações populares.


E todos se unem numa ação afirmativa, desde 2006, que se denomina: "Bairros pela Memória e Justiça". Nessa ação, as organizações buscam identificar o local onde nasceram, estudaram e viveram os militantes assassinados. Reconstroem a sua história, lhes resgatam a identidade e marcam a sua presença para que nunca sejam esquecidos pelo povo.


Para que jamais se repita!


No dia 1º de fevereiro deste ano, em visita à Argentina, a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, encontrou-se com as mães e as avós da Praça de Maio (por que os filhos (HIJOS) não foram convidados?). Hebe Bonafini, líder das Mães, classificou como "bela", a reunião, porque "Dilma e Cristina são mulheres revolucionárias que lutaram ao lado dos nossos filhos e se tornaram presidentas". A presidenta Dilma, por sua vez, também se mostrou emocionada e disse que elas (mães e avós) "fizeram uma manifestação imensa de carinho por mim, identificando em mim o que elas perderam ao longo dos anos".


Estela Carlotto, presidente da Associação Avós da Praça de Maio, também aplaudiu o encontro, mas fez questão de destacar que a memória da Ditadura é essencial para evitar o retorno a formas opressivas de governo, e ressaltou: "Não tenho a menor dúvida de que a presidente Dilma buscará a verdade da justiça e da memória. A verdade de uma história de opressão da Ditadura. Queremos saber quantas são as vítimas da ditadura no Brasil, as circunstâncias das mortes de militantes brasileiros nas décadas de 60 e 70".


Embora criticadas atualmente por sua adesão ao governo Kirchner, as Mães de Maio merecem a homenagem. Elas que primeiro botaram a cabeça de fora e foram às ruas em plena ditadura fascista. Três de suas integrantes foram também "desapa-recidas" pelo Regime (Azucena Villaflor, Esther Ballestrino e María Ponce) e não recuaram. Seguindo seus passos, vieram as Avós e os Filhos, que dão continuidade à luta. Vivam as Mães de Maio, bem como as Avós e os Filhos dos desaparecidos. Para que nunca mais volte a acontecer!


"Guiem as nossas mãos, as suas mãos fortes,
Para o futuro, até a vitória, sempre!"


José Levino, historiador   
                                                       fonte:         http://www.averdade.org.br/

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Olga Benário


Abaixo a carta de despedida que Olga Benário deixou para sua filha e para Luiz Carlos Prestes:

“Queridos: Amanhã vou precisar de toda a minha força e de toda a minha vontade. Por isso, não posso pensar nas coisas que me torturam o coração, que são mais caras que a minha própria vida. E por isso me despeço de vocês agora. 


É totalmente impossível para mim imaginar, filha querida, que não voltarei a ver-te, que nunca mais voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos. Quisera poder pentear-te, fazer-te as tranças - ah, não, elas foram cortadas. Mas te fica melhor o cabelo solto, um pouco desalinhado. Antes de tudo, vou fazer-te forte. Deves andar de sandálias ou descalça, correr ao ar livre comigo. Sua avó, em princípio, não estará muito de acordo com isso, mas logo nos entenderemos muito bem. Deves respeitá-la e querê-la por toda a tua vida, como o teu pai e eu fazemos. Todas as manhãs faremos ginástica... Vês? Já volto a sonhar, como tantas noites, e esqueço que esta é a minha despedida. E agora, quando penso nisto de novo, a idéia de que nunca mais poderei estreitar teu corpinho cálido é para mim como a morte. 


Carlos, querido, amado meu: terei que renunciar para sempre a tudo de bom que me destes? Conformar-me-ia, mesmo se não pudesse ter-te muito próximo, que teus olhos mais uma vez me olhassem. E queria ver teu sorriso. Quero-os a ambos, tanto, tanto. E estou tão agradecida à vida, por ela haver me dado a ambos. 


Mas o que eu gostaria era de poder viver um dia feliz, os três juntos, como milhares de vezes imaginei. Será possível que nunca verei o quanto orgulhoso e feliz te sentes por nossa filha? Querida Anita, Meu querido marido, meu garoto: choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça pois parece que hoje as forças não conseguem alcançar-me para suportar algo tão terrível. 


É precisamente por isso que me esforço para despedir-me de vocês agora, para não ter que fazê-lo nas últimas e difíceis horas. Depois desta noite, quero viver para este futuro tão breve que me resta. De ti aprendi, querido, o quanto significa a força de vontade, especialmente se emana de fontes como as nossas. Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão porque se envergonhar de mim. 


Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue. Mas, no entanto, podem ainda acontecer tantas coisas... Até o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver. Agora vou dormir para ser mais forte amanhã. 


Beijos pela última vez. Olga”